quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

A (r)evolução do surf

Ultimamente tem-se falado e noticiado muito a respeito da evolução do surf, ou então de sua revolução, no que se trata de ondas perfeitas e como se faz para surfa-las. O circuito mundial é um exemplo claríssimo de que onda perfeita é o requisito principal para realizar as etapas do WCT, pois salvas algumas exceções, vem sendo disputado somente nas melhores ondas do mundo, só nas maiores e mais perfeitas possível. Ontem assisti o vídeo do Globe Pro Fiji 2005 e meu Deus, o que eram aquelas esquerdas?! Na semifinal o Kelly Slater pegou um tubo de backside de no mínimo 12 segundos em Cloudbreak, é absurdo!!! (A boa notícia é que Tavarua e Namotu estão de volta ao calendário, com 11 etapas novamente em 2008).

Isso é apenas uma demonstração que a busca pela onda perfeita continua e não só pela ASP e seu circuito profissional, é o eterno desejo de qualquer surfista e agora também de empresas, governantes e milionários de surfar ou proporcionar (e ganhar muito dinheiro, óbvio) o surf em ondas perfeitas. No Brasil existe projeto em estudo por professores e alunos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), para criar um fundo artificial na Praia da Macumba, que seria capaz de alterar o tamanho e a forma de arrebentação das ondas no local, dando qualidade as ondas dos diferentes swells que atingem o pico. Especulou-se também da criação de um fundo na praia de Buiçananga, em São Sebastião, SP, junto ao IPDRAM (Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento de Recifes Artificiais Multifuncionais), porém ficou pelo ar o assunto.

No mundo já existem fundos artificiais, como na Gold Coast Australiana, onde dragas sugam a areia do fundo de um canal e o devolvem para o mar através de grandes tubulações, o que dá um “revertério” no fundo, criando o superbanks de Snapper Rocks e formando uma série absurda de direitas perfeitas, muitas direitas pra tudo quanto é canto, hahaha. Não chega ser um fundo artificial, mas é uma forma que surgiu meio sem querer ao solucionar o problema do canal e que acabou formando uma bancada alucinante, sendo o paraíso dos regulars.
Super Banks - Snapper Rocks, Austrália
A Nova Zelândia, que já tem alguns picos irados com altas ondas, também recebeu uma ajudinha do homem para aperfeiçoar sua costa em 2006, o Mount Reef, em Mount Manganui, ao nordeste do país, cidade que já é considerada um dos maiores picos do surf na Nova Zelândia, com grande concetração de lojas do segmento, surfistas e ondas, porém a necessidade de uma onda de nível internacional despertou a cobiça por um fundo artificial em frente ao pico. O investimento total do projeto foi de US$ 800 mil (+- R$ 1,400 milhões) e foi custeado por investidores, empresários e doações da galera da própria cidade, que hoje desfrutam de tubos de até 5 pés para os dois lados (eu acho, até março de 2006 apenas a primeira parte do projeto estava concluída e rolavam apenas esquerdas iradas. Não encontrei fontes atuais sobre MT Reef) e cansam as pernas numa seção que pode chegar a 50 metros de extensão.
Projeto gráfico

A esquerdinha funcionando na NZ - Foto: mountreef.co.nz

Agora a Europa quer entrar na onda do fundo artificial, colocando sacos de areia próximos ao píer de Boscombe, no sudoeste da Inglaterra. O projeto já foi aprovado e o pico deve ficar pronto até outubro deste ano e terá acesso gratuito, como Snapper, pois se trata de praia. De acordo com os estudos, o pico deverá receber direitas perfeitas de até 9 pés, dependendo do swell. E como “a Rainha” quer por que quer ter um representante na elite do surf mundial, no início do ano a BBC Londres noticiou que a empresa de esportes radicais Venture Xtreme quer construir uma máquina de ondas perfeitas em pleno rio Tamisa, ao leste de Londres. O pico terá praia artificial com capacidade para 200 espectadores e tudo mais. As ondas podem variar de 3 a 9 pés, dependendo do nível dos surfistas, intercalando por séries, conforme a programação da máquinas. O custo do projeto gira em torno de 20 milhões de libras (+- R$ 70 milhões) e tem previsão de ficar pronto em 2011 e qualquer um pode surfar lá, pagando a bagatela de 30 libras (+- R$ 120) por hora de banho.

"Tudo sobre esta experiência é falso, mas a diversão é real", disse o diretor da Associação Britânica de Surfe, Duncan Scott, ao jornal britânico The Guardian.

Projeto das ondas artificiais no rio Tamisa. Imagem: Barker And Coutts Architects

Já existem outros picos com ondas artificiais pelo mundo, como os famosos flowriders, que criam a sensação de deslizar sobre a água, não exatamente uma onda, mas uma diversão válida, que é bem comum em estados americanos sem praia, como Ohio, Minnesota, Missouri, Texas entre outros, e até mesmo em grandes navios de cruzeiro, sendo mais uma atração ao lado de cassinos, grandes shows e grandes festas.

Flowrider no Water Park of America, em Minnesota, USA

Flowrider no navio Royal Caribbean Cruiseliner, Freedon of the Seas

Além é claro, a clássica Wave House, em San Diego, na Califórnia, que cria um tubo irado pra esquerda, com uma pressão assustadora da água que faz o cara decolar (ou rolar) legal. Não é perfeitamente “surfável”, mas vale uma baita diversão pelo custinho de 40 doletas a hora de banho, ou de tombos. Já ouvi falar também que um shopping em Durbin, na África do Sul, criou uma Wavehouse semelhante à de San Diego, porém com direitas perfeitas, mas como a divulgação é muito pouca, não consegui obter maiores informações a respeito.

Wavehouse San Diego, Califórnia

Mas a onda artificial mais impressionante e perfeita, onde pode-se surfar mesmo, dropar, alucinar numa parede em movimento e tal, fica na Malásia, em Kuala Lampur, no parque Sunway Lagoon, que inclusive foi palco do festival Quiksilver 2.0, que rolou no último sábado (26/01), reunindo muito surf, tow-at (uso de jet-ski para dar velocidade ao surfista em ondas pequenas), skate, vôo livre, shows musicais e também de alguns dos melhores surfistas do mundo voando baixo nas ondas da piscina mais irada do planeta (ao menos que eu conheço, hehehe).

Troy Brooks de superman no Sunway Lagoon – Foto: Divulgação Quiksilver

Josh Kerr voando alto na Malásia – Foto: Divulgação Quiksilver

E agora tem mais uma novidade, que descobri essa semana, com o meu brother Lohran, lá da comunidade Fluir, descobriu e me passou (boa Lohran, valeu brother). O shaper australiano Greg Webber apareceu com uma idéia meio maluca, mas irada. O projeto seria a construção de uma piscina em forma de O com uma série de ondas percorrendo o percurso. A piscina comportaria até 100 surfistas por vez com muitas ondas na série. O que deixa a desejar um pouco é o tamanho, mas mesmo assim é irado. Conheçam o projeto no site dele: http://www.liquidtimepools.com/.

Confira o vídeo do projeto:
http://www.youtube.com/watch?v=tdv0_EC6BsU&eurl=http://www.liquidtimepools.com/videos.html

Claro que toda essa evolução do surf implica em muitas considerações que pesam aos surfistas, como a consciência ecológica, pois não sabemos até onde essas mudanças no fundo natural das praias afetará o ecosistema do lugar. Ou quem sabe ele até possa melhorar a vida marinha do pico, como aqui no RS que é fundo de areia liso, criaria um novo habitat e enriqueceria o ecosistema do lugar. Ou então que o surf em ondas artificiais vai contra a eterna proposta do surfista de alma, que é a busca por ondas perfeitas e que perde-se muito do contato com a natureza, do feeling que só o surf proporciona e tudo mais. Eu, por exemplo, sou um surfista de alma total, amante da natureza e deste feeling, do surf clássico e tudo mais, porém moro a 120km da água salgada mais próxima e o pico ainda pode ser considerado de nível baixo, pois é fundo de areia com raras bancadas e normalmente a condição é storm e água fria, por ser muito ao sul e ter a costa sem quebras. Então, apesar de toda comunhão com o surf de raiz, ficaria amarradão em ter uma surf pool por perto de casa ou então de uma máquina de bagunçar a areia do fundo ou então sacos de areia no píer de Tramandaí.

Acho que a evolução do mundo trará essa criação de boas ondas naturalmente e será cada vez mais comum e como em quase tudo na vida, tem seu lado bom, assim como seu lado ruim e ambos devem ser considerados. Mas nenhum surfista se negará a pegar altas ondas onde quer que elas estejam, isso é fato.
E você, o que acha disso tudo? Deixe seu comentário sobre o assunto que é irado e tem pano pra manga.

Grande abraço e altas ondas sempre!!!

(Galera, foi mal pela demora de uma nova matéria, mas esta deu trabalho para pesquisar e juntar material. Mas ficou IRADA!!! Curtam...) E desculpa a falta de configuração do texto, mas o blogger é meio tosco mesmo. Abração.

3 comentários:

Felipe disse...

Excelente post Igor, como vc mesmo disse ficou irado.

ACho que a criação de fundos, desde que não acabe como ecossitema local, é uma iniciativa válida. No projeto da Macumba por exemplo, a criação do fundo ajudaria a conter a erosão na areia que inclusive já detonou alguns quiosques da orla. Além disso se mostra necessário uma vez que a população de surfistas cresce muito e o surf se torna um esporte cada vez mais praticado no mundo. Acho que ajudaria a espalhar o crowd além de melhorar a qualidade das ondas.

Abração e boas ondas

Lohran disse...

MELHOR MATÉRIA JÁ FEITA POR VOCÊ AQUI NA COLUNASWELL!!
Parabéns brother, ficou muito bem escrita e bem distribuída geograficamente.
Certamente, você teve um árduo trabalho ou pesquisar o que cada fundo artificial proporcionaria aos surfistas, valores de projetos e todas as informações que você conseguiu nos passar.
Sobre aceitar, ou não, uma piscina de ondas para surfar, visto que somos surfistas de alma e gostamos do contato com a natureza vou mais longe que você...cara, eu moro a mais de 600 km da praia mais próxima, você acha que eu não gostaria de uma dessas aqui pertinho? É óbvio que sim...seria, inclusive, a favor de implantarem uma máquina de ondas aqui no laguinho da cidade. Hahahahahaha.
Ah, não poderia deixar de agradecer pela lembrança feita a minha pessoa como "ajudante" no que diz respeito à maquina de ondas idealizada por Greg Webber.
Acho que vale a pena acrescentar uma piscina de ondas, mais pela sua fama do que pela sua perfeição em ondas, chamada Typhoon Lagoon, a famosa piscina de ondas da Disney.
Então é isso Ígor, sua matéria ficou ótima!

Abraços,

Lohran.

Giovanni Mancuso disse...

Igor,
Como deves ter percebido tenho andado ausente do meu blogue. O motivo é, coincidentemente, o mesmo deste post: desde dezembro/2007 estou negociando para ser o representante para o Brasil da Wave Loch (www.waveloch.com). Posso adiantar que existem vários proetos em estágio bem avançado no sentido de instalar algum dos produtos deles por aqui. E adianto que entre os vários produtos, há um, mais novo, cujos testes com surfista + prancha de surfe real, já foram feitos e aprovados. Chama-se Flying Reef e posso garantir que além de revolucionário, é a única alternativa de onda artificial que efetivamente vai oferecer uma experiência próxima àquela que se tem no mar.
[]s
GM